quinta-feira, 5 de julho de 2007

Conservatório

Conservatório, esse nome é temido e respeitado por muitos, mas será que as provas de ingresso são o “bicho-papão” de que todos falam? Muitos já ouviram mitos sobre o conservatório, que os professores prejudicavam os alunos, que desdenham os alunos, que houve alunos que foram para efectuar o exame disseram boa tarde e foram convidados a sair. Enfim… Existem inúmeras histórias, mas a que tenho a apresentar é a minha.
Dia 5 deste mês dirijo-me para o Conservatório, exame às 14.30, tempo para almoço é nulo, a voz tem de estar apurada. Entro e sim, sente-se que o edifício em si impõe respeito. Estava à espera de pessoas ásperas, mas o que encontrei foi bem diferente. Uma senhora coordenava amavelmente os alunos para as respectivas salas; depois de perdida a timidez, os futuros músicos conversavam entre si, apoiando-se e falando das suas experiências enquanto músicos. Chega o momento – para todos os que costumam cantar, aconselho acompanhante pianista ou que saibam tocar piano porque podem aquecer a voz numa sala antes de entrar para a prova – passamos a porta, quatro professores são o júri que nos espera, no meu caso estava mais uma professora de piano que iria ser a minha acompanhante. Depois de uma breve entrevista, leia-se “porque é que está aqui?”, apresentamos a nossa peça. Os nervos imperam agora, trememos ao enfrentar esta barreira. A peça termina – ou não, depende do que pedirem. Os pianistas, por exemplo, não chegam a tocar tudo o que é obrigatório, mesmo assim convém saberem tudo –, voltamos a sentarmo-nos ao pé dos nossos avaliadores. No caso da prova de canto pedem para que realizemos vocalizos e depois, acho que esta prova é para todos, mas é elaborada de formas diferentes, existe um teste de ritmos (algo simples, muito simples mesmo) e, no meu caso, terminei num “jogo” de repetições, em que um professor cantava algo e eu tinha que repetir.
Quando saímos todos nos perguntam como correu, todos nos sorriem quando dizemos que correu bem ou razoavelmente bem. Saímos mais leves, com o sabor de missão cumprida. Será que entrámos, isso já não é tão importante, conseguimos ir lá e mostrar do que somos capazes. Agora só dia 27 é que nos preocupamos de novo.
Shadow

domingo, 24 de junho de 2007

O que é a Música

O que é a música senão o interiorizar dos desabafos dos outros, e o expelir das minhas angústias, das minhas esperanças, do meu amor, do meu ódio, das minhas mentiras, da minha sinceridade? O que é para mim a música senão o despertar do génio interior, daquele alguém que sonha sair? O que é para mim a música senão tudo?
A verdadeira melodia não se ouve – sente-se. Daí ser quase tocável, daí trazer-me as lágrimas aos olhos, os arrepios à espinha, o sorriso aos lábios. É que numa partitura está muito mais do que num romance, numa Bíblia, na moral de uma história, ou até nestas minhas palavras. Não está é à vista de todos.
O código que faz de alguém um músico é indecifrável, nasce numa pessoa e cresce apenas se ela quiser. Tão imprevisível como a essência da alma humana, e tão vasto como a mesma. Ou talvez não tão vasto, mas a chave para essa mesma vastidão. Porque através da música, a alma sobe, cresce, expande-se, expele-se a si própria, procria com a arte para criar algo único. O músico cria-se através dela, nasce mil e uma vezes em apoteoses distintas por peças, que ficarão para sempre gravadas nas areias do tempo, até que o seu corpo seja pó e o seu instrumento condenado ao silêncio.
Meu desejo é ser pó. Mas não o simples pó que fica após a Morte inevitável. Não. Quero reduzir-me a pó a mim mesmo, de tanto retirar de mim arte e vida. Quero deixar tudo neste Mundo, partir para o Além vazio e desprovido de tudo, sem nada que me prenda à Terra, nada que me pese nas costas. Serei pó de me esgotar a mim próprio. Não de ser esgotado pela vida. Serei pó de ser músico, de me desfazer em arte. E assim subirei livre para o que quer que venha depois da vida. Subirei descansado. A minha marca ficará neste limbo, e será o meu pedaço de Eternidade. Para que outros o sintam, o ouçam, e seguidamente escrevam este texto. Quando isso acontecer, já serei livre, já estarei noutro lugar a fazer a mesma coisa.

Sephart

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Uma breve introdução

Depois do silêncio, aquilo que mais aproximadamente exprime o inexprimível é a música. (Aldous Huxley)

Porquê um blog sobre música? Mais um blog sobre esta arte que nos trespassa e nos faz viver, mas não sobre críticas a álbuns e entrevistas a artistas, até porque blogs e revistas assim já existem. Este é um espaço diferente, um espaço de reflexão, onde músicos que ambicionam ir mais além escrevem o que sentem e o que vêem ao seu redor. Como diz um amigo meu “A música para mim não é um hobby, é aquilo que eu quero, desejo, sonho, penso e respiro”.
Todos os que têm ou já tiveram uma banda sabem do que me refiro quando digo que é difícil manter uma banda coesa, conseguir fazer com que aquela musica fique como nós tínhamos sonhado, conseguir aquele instrumento que é melhor que o nosso. Conhecem igualmente aquela sensação de bem-estar quando se entra em estúdio para tocar as nossas músicas, quando começamos a evoluir e a ter aulas de música, quando existem as preparações para os primeiros concertos, quando damos os primeiros concertos e sentimos o publico pela primeira vez.
Este blog será para retratar estes primeiros passos e os passos que se seguirão. Falaremos também de forma mais pragmática em teoria musical, em instrumentos, em locais para dar concertos. Falaremos de bandas que estão a dar os seus primeiros passos e daquelas que já conseguiram atingir um certo estatuto. Em suma, este é um blog de músicos para músicos. Um local que pretende ser de troca de ideias e de entreajuda.

Shadow